Neste capítulo, falaremos da primeira categoria que compõe a Pós-Produção de Áudio:
CAPÍTULO III - Ambiência
- O Som Local
Vamos então começar a nos embrenhar mais a fundo na “selva” da Pós-Produção de Áudio. E já que estamos falando de selva, vamos lembrar que toda selva tem seus sons característicos: aves, insetos, um animal urrando aqui, outro acolá, um eventual riacho a certa distância, o vento balançando as árvores… como podemos notar, não é somente “um” som, mas uma soma de sons variados, que é percebida como uma coisa só; ao ouvir essa soma de elementos sonoros, o espectador identifica o que está ouvindo como uma SELVA.
Ou seja, já descobrimos “um” som que ajuda o espectador a localizar e identificar o ambiente onde uma ação está acontecendo. A esse “um” som é dado o nome de AMBIÊNCIA, ou “BG”, uma abreviação do termo em inglês background (fundo). Voltando a fazer analogias entre som e imagem, o termo em inglês descreve essa categoria de som com muita propriedade, pois a ambiência pode ser comparada ao cenário de fundo que ilustra uma fotografia. Por exemplo, ao vermos uma foto de alguém com uma mata cerrada cheia de cipós e aves silvestres ao fundo, concluímos de imediato que essa pessoa deve estar em uma selva; troque a mata e as aves por arranha-céus e muitos carros, e “localizamos” a cena em uma cidade grande, e por aí vai.
- O som 3D
A Ambiência, além de localizar a ação no sentido geográfico, também nos dá uma perspectiva sonora dela, pois assim como a pessoa pode ser vista “à frente” ou “lá atrás” em relação a um cenário, ela pode ser ouvida como estando “perto” ou “longe” em relação à ambiência de um local. A ambiência é um poderoso elemento para nos ajudar na percepção de profundidade e tamanho do local onde transcorre uma ação; essa é a famosa “NOÇÃO DE LOCALIZAÇÃO” explicada no primeiro capítulo.
Com certeza a Ambiência é a categoria de áudio que mais se beneficia do uso de sistemas de reprodução sonora com mais de duas vias, como home theaters e sistemas de som das salas de cinema. Nestes sistemas, existem as famosas caixas de surround, posicionadas nas laterais e atrás do espectador. Este é provido com uma espacialidade muito fiel à realidade. É extremamente importante ter isso em mente, ao se mixar a Ambiência com o intuito de reproduzi-la neste tipo de sistema de som. Mas antes de tudo deve-se tomar cuidado com o volume da ambiência; ela está lá para envolver o espectador, e não para distraí-lo, fazendo-o se virar a toda hora procurando a fonte sonora.
- O som alfaiate
Uma característica fundamental do som é estar em constante movimento. A intensidade e a sonoridade mudam incessantemente no decorrer do tempo. Por isso, um papel primordial que a Ambiência tem é “costurar” um outro áudio que tenha muitos cortes na edição, quando estes cortes estão comprometendo a ”Noção de Realidade” do espectador.
Um exemplo:
Imaginemos uma sequência com um casal parado em uma praia deserta, discutindo o relacionamento deles, numa sucessão de cortes de plano e contra-plano, mostrando alternadamente suas expressões faciais conforme falam.
Digamos que as falas foram gravadas durante a filmagem (o “Som Direto”, assunto do próximo capítulo). Por mais cuidado que tomemos na gravação, com certeza o som do mar acaba sendo captado junto com as vozes; neste exemplo, digamos que o som do mar ficou bem baixo, não comprometendo a inteligibilidade das falas (oxalá fosse sempre assim…).
A edição “picotada” da imagem acarreta uma edição similar nas falas - o áudio de cada fala tem que corresponder às tomadas escolhidas. Deveria ser simples - deveria, porque ao término da edição das falas, ouve-se ao fundo o mar, e em cada corte surgem variações abruptas de intensidade e sonoridade, pois o mar não “pára” entre a gravação de uma tomada e outra. As falas estão lá, mas o espectador ficará extremamente incomodado com aquele som fragmentado ao fundo. O que fazer?
Uma solução é filtrar o som original do mar o quanto for possível sem comprometer as falas, e acrescentar uma ambiência de mar, contínua, fluente, na sequência toda; outra solução é utilizar essa ambiência contínua como fundo para a Dublagem (tema de outro futuro capítulo). Em qualquer um dos casos, o resultado será simples e discreto, tudo que o espectador precisa para a sequência em questão.
- O som familiar
Por que a Ambiência foi a primeira categoria de som a ser explicada? Por uma razão muito simples: é o tipo de som com o qual estamos mais acostumados, já que escutamos ambiências 24 horas por dia. Isso mesmo, até quando dormimos.
“Os ouvidos são os guardiões do sono”. Esta frase com certeza é contemporânea da roda, já que nossos antepassados nas cavernas também dormiam de olhos fechados, confiando na audição para alertá-los da presença de um eventual predador à espreita. E mesmo quando estamos acordados, passamos horas em locais definidos, por razões as mais variadas. Nada mais natural que conheçamos muito bem a ambiência destes lugares em que convivemos, seja nossa casa, nosso recinto de trabalho, etc.
E exatamente porque ouvimos essas ambiências por horas e horas, sem ao menos precisarmos das fontes sonoras no nosso campo visual (situação, por sinal, muito comum), não prestamos atenção nelas. Nosso subconsciente registra a presença delas, enquanto fazemos outras coisas. Mas se a ambiência do local onde estivermos pudesse sumir de súbito, perceberíamos no mesmo instante, já que não há silêncio absoluto no nosso dia-a-dia; mas se por acaso você estiver lendo isto do lado de fora de uma estação espacial, ou trancado em uma câmara anecóica, desconsidere essa afirmação…
- O som notado
Após tanto falar sobre os sons que nos cercam, proponho que você, caro leitor, faça agora um pequeno exercício, muito simples e rápido. Seja dia, noite, madrugada, a qualquer hora, você notará que vários sons estão sendo emitidos no alcance da sua audição: um zumbido de lâmpada fluorescente, uma geladeira ligada, a bomba d’água do prédio, o trânsito lá fora, a ventoinha do computador, os grilos ou os pássaros no jardim, enfim, cada um de nós terá uma ambiência constante e particular a nos cercar. Então, interrompa esta leitura por, digamos, 30 segundos e preste atenção nos sons que o rodeiam; é o melhor exemplo prático que posso propor, para entender tudo que foi dito até aqui.
(Espaço reservado para a pausa)

- O som referencial
O exercício que acabamos de realizar pode parecer uma bobagem ou uma mera atividade lúdica, em princípio, mas é extremamente útil para as pessoas que precisam lidar com Som vinculado a um meio de comunicação. Não me refiro apenas aos profissionais da área de áudio; por exemplo, ao se escrever para rádio - comerciais, radionovelas, etc. - temos que lembrar que não há imagem. É obrigação de quem está criando, dar pistas auditivas ao ouvinte do local onde se passa a ação. Ou mesmo quando há imagem, muitas vezes a única noção que o espectador tem se é dia ou noite, se é na cidade grande ou em um lugar ermo é o que se ouve vindo “de fora” da cena, na hipótese da ação se passar em um recinto sem vista externa.
- O som prático
E já que falamos de tantas características da Ambiência, enfatizo que ela é um som de FUNDO; implica dizer que é em geral um som difuso, de duração média ou longa, e sem necessidade de sincronismo com um evento específico de imagem. Citando exemplos de ambiências, com as devidas observações dependendo do exemplo:
- NATUREZA - sons de selva, mata, bosque, brejo, pântano, parque (na prática, o que os diferencia é o tipo de fauna e a quantidade de animais e insetos); praia, cachoeira, curso d’água (diferentes sons de água), chuva (com diferentes intensidades e superfícies; pode haver trovões, de preferência distantes), insetos (grilos costumam identificar a noite, cigarras, o dia); ambiência rural (galinheiros, estábulos, canil), vento (do mais monótono ao mais intenso, assoviando e tudo o mais)
- GENTE - qualquer situação que reúna pessoas, desde o murmúrio do público em um julgamento, à histeria de um megashow ao ar livre; restaurante (vozes + talheres), bares (vozes + copos), centro comercial ou loja (vozes + passos + sons de caixas registradoras), feira livre, festas e bailes, shows, público de eventos esportivos, vaias, aplausos, apupos, cantos de guerra. Um tipo específico de ambiência de pessoas é chamado de “WALLA”, e será explicado no capítulo dedicado à dublagem
- URBANOS - tráfego (do residencial ao pior congestionamento de metrópole), escritório (telefones, digitação em computadores ou máquinas de escrever, impressoras, vozes); estações de trem, metrô, aeroportos, rodoviárias (pessoas + o meio de transporte em questão)
- SALAS - um tipo de ambiência muito peculiar é chamada de “ROOM TONE” (tom de sala), que nada mais é do que um som contínuo presente em qualquer tipo de cômodo vazio, seja por causa de uma lâmpada fluorescente zumbindo, uma caldeira, uma geladeira, ou o mero barulho de um aparelho de ar condicionado. É de uso muito recorrente para a já citada “costura” de falas em filmes.
Note como é possível se combinar diferentes Ambiências para gerar novas texturas sonoras: tráfego com chuva, festa na praia, room tone com grilos “lá fora”, etc.
- O som certo
Este parágrafo é dirigido em especial aos TÉCNICOS DE SOM NOS SETS DE FILMAGENS: Lembrem-se da importância de se registrar as AMBIÊNCIAS DAS LOCAÇÕES. Dez minutos dedicados a gravar os sons destes locais (seja uma praia ou um room tone do set vazio) podem salvar HORAS de edição, especialmente para realizar a já citada “costura sonora” de um áudio muito “picotado”.
E aos envolvidos com a edição e a mixagem, ressalto nossa OBRIGAÇÃO de ouvir, ouvir MUITO, os ambientes do “mundo real” com atenção, e memorizar o que se ouve. Isso ajuda para saber identificar que ambiência uma imagem pede. Chuva na grama não soa como chuva em telha de zinco; parece óbvio, mas ainda tem “profissionais” que não notam a diferença… Torcida de badminton no ginásio não soa como torcida de futebol no estádio. Som de mar não serve para praia de rio no pantanal…
E para quem mora em cidades com metrô: já repararam nos sons que saem dos túneis de metrô, no intervalo entre as composições?
Não confiem tanto no que só ouviram em caixas acústicas ou fones de ouvido; TEM QUE IR a um estádio ao menos UMA vez na vida! vão ouvir o mar na ressaca, reparem no room tone de cada cômodo de suas casas… Todos só têm a ganhar com isso.
<TÉCNICA: AMBIÊNCIA + SFX: passarinhos no jardim, página sendo virada>











































