- Arte abstrata
Vamos continuar a analogia entre o que vemos e o que ouvimos. Mas agora, imagine-se olhando para uma pintura abstrata, sem necessariamente ter formas, objetos ou rostos reconhecíveis. Mesmo assim, suas emoções são instigadas por essa pintura, seja pelas cores, pelas texturas, pelo jogo de luz e sombra… o fato é que você pode até saber o que lhe atraiu na pintura, olhando-a uma segunda vez e prestando atenção nos detalhes. Mas as emoções são despertadas primeiramente pelo todo, pela pintura em si. Seu cérebro não decodifica nada; ele gosta da pintura porque gosta e pronto.
Assim funciona a música. Não me refiro à letra de música, mas sim à melodia, ritmo, harmonia, timbre, a parte instrumental, enfim. Emoções como alegria, tristeza e temor podem ser evocadas dependendo do tipo de acorde que se ouve; calma ou excitação são despertados pelo ritmo; pode-se sentir saudades simplesmente por ouvir um timbre que se ouvia na infância. Via de regra, em uma primeira audição, ninguém fica analisando a música que está escutando de forma lógica. Ninguém fica separando parte rítmica da harmônica e da melodia, para descobrir se gosta da música ou não.
E se essa música estiver sendo ouvida por baixo de uma fala, ou de uma cena de ação cheia de efeitos visuais e sonoros, então seu efeito será mais dissimulado ainda, o que não quer dizer que passe despercebido. Nesse caso, o cérebro processa prioritariamente o que está em primeiro plano, e a música é assimilada em um plano subliminar. O espectador se emociona, sem premeditar isso.
Sendo um elemento que pode mexer com as emoções tão profundamente, deve ter seu uso - quantidade, volume, duração - meticulosamente estudado. As emoções devem ser instigadas até certo ponto, pois o fato de se colocar, digamos, duas horas contínuas de música tenebrosa não vai fazer o espectador sentir mais medo do que sentiria normalmente; pelo contrário, pode fazê-lo ficar extremamente incomodado e desistir da experiência audiovisual ora apresentada. Tudo que é demais cansa. Devemos sugerir as emoções ao espectador, realçá-las talvez, mas não tentar socá-las ouvido adentro.
Em uma palavra: sutileza.










































