- Noção de localização: o « onde »
É fundamental ajudar o espectador a identificar não apenas o “que” gerou um som, mas também de “onde” ele veio. Há três pontos a se considerar simultaneamente:
1) Sentido de distância - se a fonte sonora está perto ou longe; isso é conseguido aliando-se o volume do que se ouve com a quantidade de reverberação. Seria o equivalente, em imagem, à profundidade;
2) Sentido geográfico - sons de floresta, praia ou tráfego pesado, por exemplo, fazem o espectador se localizar num átimo. Música típica da região ou país em que se passa a ação (forró, música oriental, música árabe, etc.) dão a localização no planeta. Todos os exemplos que citei são extremamente úteis para criar o contraste entre duas ações que ocorrem em locais diferentes; assim o espectador não precisa de uma voz dizendo a toda hora: “enquanto isso, num escritório em Tóquio…” ou “naquele mesmo dia, no sertão de Quixeramobim…”
3) Sentido espacial - se o som veio da frente ou de trás, da esquerda ou direita, se é um lugar aberto ou fechado, grande ou pequeno. É conseguido posicionando-se o som em diferentes caixas acústicas e usando-se diferentes tipos de reverberação. A audição tem um campo de atuação de 360°, sem precisarmos virar a cabeça. Logo, vamos jogar com esse fato a nosso favor.
O “onde” está intimamente ligado à já citada noção de realidade. Todo mundo têm noção (mínima que seja) de como deve soar, por exemplo, um carro passando lá fora ou sapatos de salto na escadaria de um prédio, mesmo quando as fontes sonoras não estão no campo visual, por sinal, uma situação mais do que comum no dia-a-dia. Nós não ouvimos apenas o que vemos, e sempre temos idéia de “onde” veio o som.
- Noção temporal: o « quando »
Há duas maneiras distintas e complementares de situar “quando” uma ação transcorre:
1. Cronológica - o áudio ilustra a época: um avião da 2ª Guerra não vai soar como um Boeing 777; um trem do tipo Maria-Fumaça evoca a era da Revolução Industrial, e por aí vai. Outra arma muito eficaz é a música de época: um cravo tocando música barroca, uma big band tocando swing, uma bandinha de coreto, etc.;
2. Instantânea - visão e audição atuam juntas para situar o espectador no tempo em que a ação durou, está ocorrendo ou vai durar:
- Tempo presente - olhos e ouvidos reagem simultaneamente: uma porta abre, ouve-se o barulho da porta abrindo. A interação do som com a imagem é meramente descritiva;
- Tempo futuro - um sentido alerta o outro que algo está por acontecer: vê-se uma porta fechada, mas ouve-se a porta sendo destrancada, alertando que alguém vai abrir a porta;
- Tempo passado - um sentido comunica ao outro que algo já aconteceu: vê-se uma porta aberta e ouve-se um carro sendo ligado “lá fora”, indicando que alguém saiu daquele recinto e está indo embora.
- Emoções induzidas: o « porquê »
O ser humano reage à diferentes situações baseado no que seus sentidos captam ao seu redor; nem por isso as pessoas reagem igual frente uma mesma situação. Mas há sim alguns padrões que, em geral, nos permitem prever como irão reagir. Muitas vezes o sucesso em se passar a mensagem ao espectador depende de fazê-lo reagir de uma certa maneira já prevista; ele deve reagir da maneira tal “porque” a ação pede isso. Pode parecer mera manipulação, mas o fato é que podemos induzí-lo a sentir alguma emoção em especial, especialmente se um sentido for acionado antes do outro.
Por exemplo, imagine uma cena onde um motorista dirige um carro em alta velocidade em uma rua movimentada. De repente, ouve-se uma brecada brusca. A imagem corta para uma pessoa parada no meio dessa rua. A imagem mostrada por último explica o motivo da brecada, mas aí o espectador já havia se assustado “porque” o motorista estava em perigo iminente; agora, vamos inverter a montagem: primeiro vê-se o pedestre, ouve-se a brecada e depois corta para o carro. A imagem mostrada por último explica que um motorista viu aquela pessoa, e tentou evitar um atropelamento. Mas aí o espectador já havia ficado em agonia, “porque” o pedestre corria perigo.
Estes exemplos mostram como um sentido auxilia o outro a compreender o “todo” da situação, mas com interpretações e reações diferentes, ainda mais porque as informações disponíveis não foram fornecidas ao mesmo tempo. No caso de um plano apenas, onde se vê o carro e o pedestre ao mesmo tempo, a interpretação do fato é mais rápida e abrangente. O espectador vai antecipar os possíveis desfechos, analisando a situação de um ponto de vista mais racional - mesmo inconscientemente. Mas o som da brecada irá disparar a ansiedade e a curiosidade: “Por que” o motorista não brecou antes? “Por que” o pedestre atravessou a rua daquele jeito?
Muito bem, pode-se dizer que as diferentes montagens da cena fizeram a diferença, ou seja, o visual condicionou as diferentes emoções do espectador… MAS… porém, todavia, contudo…
O elemento que catalisou todas essas emoções não foi visual.
Foi o som da brecada.
Nos três casos, todo o medo, agonia e curiosidade, respectivamente, se perderiam sem esse elemento.










































